O Motorista Do Céu
Era uma vez, um menino sardento chamado André…
Não sei como foi a sua infância e a sua adolescência, nos conhecemos já adultos. Mas acredito que o pequeno André não era muito diferente do cara engraçado e sorridente que encontrei num domingo à noite, depois de muitas cervejas… E que acabou se tornando parceiro de festa, colega de escola de samba e amigo.
O menino cresceu, virou motorista de ônibus e sinônimo de alegria e diversão. Tinha muitos amigos, gostava de carnaval e para encontrá-lo nos fins de semana, era só procurar a festa mais movimentada. Era sempre o mais animado e muitas vezes o mais disputado… No entanto, mesmo cercado de “meninas”, sempre dava atenção a todos os amigos. Estava sempre circulando, dançando e cumprimentando todo mundo.
Tenho um amigo professor que mora em cidade de imigração alemã no interior do Estado. Conversando com esse amigo por telefone, em uma das nossas madrugadas solitárias, ele perguntou se eu conhecia algum André. Porque uma amiga muito querida dele estava namorando um cara da minha cidade com esse nome. Na hora, pensei no “menino sardento”.
Algum tempo depois, encontrei com o André em um dos ensaios da nossa escola de samba e lembrei de perguntar. Minha intuição estava certa, era ele mesmo o namorado na menina loira. Foi inevitável rir das coincidências e de como o mundo pode parecer pequeno…
Na realidade, eu gostaria de saber mais sobre ele, gostaria de ter encontrado com ele mais vezes, conversado mais e abraçado mais… Sempre que nos víamos, a reação dele era a mesma, abria um sorrisão e vinha caminhando de abraços abertos. E quando me abraçava dizia: “Tu é minha amigona do coração, eu gosto muito de ti, nunca esquece disso” e se despedia com a celebre frase: “A gente vai ser amigo pra sempre”.
O problema é que o pra sempre dele, foi menos do que esperávamos. Para nós, os amigos que ele fez no decorrer de três décadas de vida, o pra sempre deveria durar bem mais do que durou.
Há semanas nos perguntamos o porquê e tentamos encontrar respostas para o que aconteceu. No dia de nos despedirmos do “menino sardento”, muitas frases foram ditas, coisas como: “Deus quer pessoas boas lá em cima”
Já a minha mãe deu a explicação que mais me emocionou…
Já leste o livro “Violetas na Janela”? Eu li há alguns anos e achei engraçado. Recomendo a leitura para quem quiser encarar a passagem para outro mundo de forma mais leve.
A definição de Céu apresentada no livro é muito estranha e divertida. Quem está lá, vive como nós aqui… Trabalha, estuda, tem casa, vai ao teatro, se diverte… Tudo igual, só que em outro plano.
Então, para minha mãe, Deus estava precisando de um motorista para os circulares do céu. E esse motorista precisava ser um cara divertido, simpático e que fizesse todos se sentirem em casa. Por isso o André foi chamado. Para ser o mais novo motorista do Céu.