No meio do caminho tinha uma viatura, tinha uma viatura no meio do caminho
A adaptação da conhecida frase de Drumond descreve bem a cena vista na Rodoviária de Porto Alegre, no fim da tarde do dia 15 de abril, quarta-feira.
Quando uma viatura (Fiat Doblo) da Brigada Militar atrapalhau o trânsito dos ônibus em frente aos boxes 01 e 02.
O ônibus que estava estacionado no primeiro boxe teve dificuldade para sair, pois o veículo da brigada, com três policias militares, estava parado em sua traseira. Quando o motorista deu réu para liberar a passagem do ônibus, trancou todo o tráfego próximo a rampa que dá acesso à saída da rodoviária.
A situação só melhorou quando funcionários de uma das empresas de transporte coletivo ajudaram a organizar o caos em que se transformou o fim daquela tarde. Para diminuir o transtorno, a viatura estacionou no boxe 02, impedindo logo em seguida, que o ônibus com destino a cidade de Taquari chegasse ao local de embarque dos passageiros.
Passados mais de 10 minutos de confusão, o motorista, também policial militar retirou a viatura do local, derrapando pneus e dando “buzinadinhas” com tom da camaradagem aos motoristas que novamente pararam de trafegar.
O fato cômico não teria me causado tanta estranheza e particularmente, um pouco de revolta, se o motivo para a desordem fosse de interesse público. Exatamente, os policias não estavam ali para servir e proteger. O objetivo da incursão à Rodoviária da Capital não foi efetuar uma prisão, conter algum distúrbio ou qualquer outra tarefa relacionada à Segurança Pública.
Eles aproveitaram a saída do veículo para um passeio no terminal rodoviário. Deixaram um colega pertinho do boxe em que ele iria embarcar para mais uma viagem gratuita. Isso mesmo, policial fardado não paga passagem de transporte coletivo.
Não tenho uma opinião formada sobre esta questão da isenção no transporte. Os policias em geral, ganham pouco no Brasil, isso é fato. Arriscam suas vidas para manter a Lei e a Ordem (alguns mais, outros menos, muito menos) e muitas vezes precisam se deslocar de uma cidade para a outra a serviço.
Acho as justificativas coerentes, mas eles são funcionários públicos, ou seja, possuem certos benefícios que a maioria da população não possui. Eu moro em uma cidade, trabalho em outra e estudo em uma terceira. Meu gasto mensal com transporte é grande e o governo não me dá isenção nenhuma. Da mesma forma que não dá subsídio algum em relação ao transporte, para a maioria dos trabalhadores.
Bom, mas isso é pauta para um outro texto, que provavelmente vai abordar a cachoeira de benefícios recebidos pelos políticos do país, sendo que todos eles são financiados pelo dinheiro público.
Voltemos ao caso da viatura… Além de desovar o colega viajante, os outros policias militares permaneceram no interior do veículo, atrapalhando o trânsito e testando a paciência de motoristas e passageiros, para esperar o outro “coleguinha”, que desembarcou da viatura e se dirigiu para o outro lado do terminal. Pela direção tomada por ele e o tempo de demora, o colega em questão devia estar comprando, ou melhor, emitindo gratuitamente no guichê de atendimento, seu bilhete de passagem.
Enquanto esperavam, todos os polícias dentro da viatura conversavam animadamente e riam muito. Sei disso, porque eu era uma das passageiras esperando que o ônibus com destino a Taquari conseguisse chegar ao boxe número 2. O carro da Brigada estava estacionado bem próximo de mim…
Quando os polícias foram embora, fiquei me perguntando se enquanto eles estavam ali descontraídos, utilizando um veículo de propriedade pública, alguém não estava precisando de auxílio, proteção ou socorro. Além disso, quem paga o combustível utilizado nas viaturas? O contribuinte.
A obrigação da polícia é prestar serviço aos contribuintes. Muitas vezes a população não recebe este serviço e esta proteção, porque “teoricamente” falta contingente. Se falta pessoal, os policias que estão de serviço “usando fardas”, deveriam estar trabalhando e não passeando pela cidade.
Porém… No meio do caminho tinha uma viatura, tinha uma viatura no meio do caminho…