Conversando com um amigo sobre a dificuldade de nos relacionarmos com outras pessoas (principalmente no âmbito amoroso), ouvi que a dificuldade existia por se tratar de duas pessoas diferentes, com personalidades, criações, valores e costumes diferentes. Achei o argumento coerente. No entanto, depois de alguns meses, cheguei à outra conclusão…
O que mais interfere em um relacionamento é o passado de cada um dos indivíduos. Afinal de contas, passado todo mundo tem e depois dos 30 anos, o histórico de cada pessoa traz consigo uma carga imensa de frustrações, desilusões e más recordações.
Alguns são atormentados por fantasmas de relacionamentos findados e mal resolvidos. Outros trazem marcas e cicatrizes tão profundas que os impedem de se deixar amar novamente. Autodefesa? Autopreservação? Mesmo não restando amor algum pela pessoa que deixamos ou que nos deixou, o tempo que ficamos com este alguém e a intensidade da mágoa e do sofrimento gerados no momento da separação causa o isolamento. O que muitas vezes não passa pela cabeça da criatura é que o outro também pode carregar nas costas um peso enorme.
Vejamos um exemplo (qualquer semelhança é mera coincidência). Uma mulher balzaquiana, enfrenta uma separação difícil e traumática, além dos prejuízos financeiros (trazidos pelo novo código civil, no que diz respeito às uniões estáveis), precisou lidar com o fim de toda uma expectativa. Acreditava que a esta altura da vida teria um casamento feliz, estabilidade financeira, casa, carro, filhos e quem sabe um cachorro. Depois da deterioração de seu relacionamento, sobrou apenas o cachorro que se transformou na companhia mais fiel.
Depois de algum tempo, mesmo não querendo envolvimento amoroso algum, ela conhece alguém de forma agradável e casual. Forças do destino conspiram e acabam aproximando os dois. A cada encontro, a descoberta de coisas em comum. Os telefonemas entre os dois se tornaram frequentes, a saudade quando estão longe um do outro insuportável e os fins de semana juntos começam a ser comuns. Tudo estaria perfeito se ela não insistisse em colocar barreiras no relacionamento, sempre de forma taxativa sobre o ”não” envolvimento dos dois.
Ela teme sofrer novamente, não quer de forma alguma sentir de novo aquela angústia, aquela dor no peito e a terrível dificuldade para respirar que sentiu no dia em que seu “namorido” saiu de casa. Então, sempre que se sente insegura sobre o que este novo homem sente por ela, cria situação que podem ser estopins para um rompimento. Se ele for embora, ela de certa forma, se sentirá aliviada, porque ele fará o esperado. Ela está assim, apenas adiantando os acontecimentos.
O que ela não faz ideia e que ele possui uma carga de frustrações e traumas até maiores do que a dela. Ele apenas já passou por esta fase e sabe que muitas oportunidades de ser feliz são perdidas pelo medo de se arriscar. Agora, resta saber por quanto tempo ele suportará a resistência dela e o medo de estar novamente investido em algo que parece ser importante apenas para ele. Pois, ele também não sabe do passado dela…



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